Ilha de Maré sofre com poluição ambiental

Por Leonardo Rattes e Mariana Alcântara

BananeiraEmbora a maioria dos estudos realizados para avaliar o impacto ambiental dos poluentes na BTS (Baía de Todos-os-Santos) tenha como foco a monitorização ambiental, novos estudos incluem a avaliação do risco aos seres humanos. É o caso da pesquisa conduzida pela professora da Escola de Nutrição da UFBA (Universidade Federal da Bahia), Neuza Miranda, que tem como tema A Saúde Ambiental em Ilha de Maré, Salvador-BA: Cenário e Propostas de Remediação. O estudo, realizado em dez povoados de Ilha de Maré, pertencente ao município de Salvador, e situada na região nordeste da BTS, teve como objetivo relacionar a exposição à contaminação ambiental com a dieta de famílias de pescadores e marisqueiras da região.

Para a execução da pesquisa, realizada nas comunidades de Amêndoa, Bananeiras, Neves, Itamoabo, Maracanã, Ponta Grossa, Santana, Praia Grande, Porto dos Cavalos e Martelo, a professora examinou amostras dos mariscos mais consumidos pela população local: o chumbinho (Anomalacardia brasiliana), o sururu (Mytella falcata) e o siri (Callinectes spp.). Além do pescado, o estudo também englobou a análise do sangue e do cabelo de 113 crianças de até seis anos de idade, com a finalidade de traçar um panorama dos níveis de chumbo presentes no organismo da população infantil de Ilha de Maré.

Chumbinho A análise do material coletado indicou que no chumbinho havia até dezesseis microgramas de chumbo por grama do marisco, isto é, uma concentração oito vezes maior do que o índice permitido pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). De acordo com o órgão, o limite máximo de chumbo presente nos alimentos deve ser de até 2 µg/g. O diagnóstico no siri e no sururu também ultrapassou os índices considerados toleráveis para a saúde humana, sendo de 2,17 µg/g e 3,19 µg/g, respectivamente.

Já a análise do chumbo no cabelo e sangue das crianças também indicou números alarmantes. Os resultados da pesquisa mostraram que há níveis de até 19,2 microgramas do metal pesado por decilitro de sangue. Os exames no cabelo apontaram que a quantidade de chumbo chega a 21,2 microgramas por grama de cabelo. Os dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) consideram que o limite de concentração deste elemento químico no corpo humano deve ser de no máximo 10 µg.

Neuza Miranda explica que esses resultados apontam que a contaminação por metais pesados já foi incorporada pelo organismo dos moradores de Ilha de Maré por meio da cadeia alimentar. De acordo com ela, o metal pesado é prejudicial à saúde seja qual for a quantidade. “Grandes concentrações de chumbo podem causar inflamação no sistema nervoso central. Níveis baixos podem afetar o desenvolvimento mental e a gestação, além de causar anemias e doenças cardíacas”, informa a nutricionista. Ainda de acordo com ela, as crianças são as maiores afetadas por este tipo de exposição, já que as mesmas absorvem cinco vezes mais componentes químicos do que adultos.

“Grandes concentrações de chumbo podem causar inflamação no sistema nervoso central. Níveis baixos podem afetar o desenvolvimento mental e a gestação, além de causar anemias e doenças cardíacas”, Neuza Miranda, nutricionista

“Uma maneira de amenizar a ingestão de chumbo é diminuir a quantidade de alimentos provenientes do mar e aumentar o consumo de carnes, frango e legumes”, explica a professora. “No entanto, como fazer isto se a principal fonte de sobrevivência destas comunidades pobres é o mar? Pelas observações de campo realizadas ao longo da pesquisa, percebi que as políticas públicas para a segurança alimentar ainda não foram implantadas nessa parte de Salvador, que parece estar esquecida pelo governo em meio ao lucro proveniente das atividades industriais presentes na área”, finaliza.

RISCOS PARA A SAÚDE
Com cerca de 8,6 mil habitantes, segundo dados da Administração Regional das Ilhas de Salvador, órgão pertencente à Prefeitura Municipal, a Ilha de Maré é conhecida pelas praias de águas quentes e calmas e pelo artesanato, a exemplo das toalhas de renda de bilro, as cestarias com fibra de cana brava e o tradicional doce de banana na palha, alvo de desejo dos turistas que passam pelo local. No entanto, é a tradição do pescado, da mariscagem e da agricultura familiar que garantem a sobrevivência da população. O desaparecimento de peixes, crustáceos e moluscos tem afetado a vida dos  habitantes da região, que reclamam que a atividade da pesca tem sido prejudicada por conta da poluição.

De acordo com os moradores, os resíduos químicos das indústrias instaladas nas proximidades da ilha estão contaminando o ar e as águas do mar. Marizélia Carlos Lopes (foto ao lado), presidente da Colônia de Pescadores Z-4, de Ilha de Maré, afirma que a população da ilha sofre com constantes odores de produtos químicos trazidos pelos ventos norte e nordeste. “Tem dias que a gente acorda com um forte cheiro de amônia, a nossa garganta coça, os olhos ardem e a pele fica áspera”, diz.

Ela conta que as pessoas que sofrem de problemas respiratórios são os mais afetados. “Foi num dia em que o cheiro de amoníaco estava tão forte, que uma criança de cinco anos passou mal. Ela tinha asma e morreu. Não deu nem tempo de levar no posto de saúde”, lamenta.

“Foi num dia em que o cheiro de amoníaco estava tão forte, que uma criança de cinco anos passou mal. Ela tinha asma e morreu. Não deu nem tempo de levar no posto de saúde” Marizélia Carlos Lopes, presidente da Colônia de Pescadores Z-4

A população de toda a ilha dispõe de um único posto de saúde, uma unidade de Saúde da Família que funciona em Praia Grande. O atendimento de emergência ou urgência inexiste. Quem precisa desses serviços tem que solicitar o auxílio da ambulancha do Samu ou se deslocar para a capital ou Candeias. Marizélia relata que muitas vezes o serviço do Samu demorou para chegar. “Minha mãe teve uma problema na coluna, então liguei para o Samu, mas a lancha só chegou mais de seis horas depois”, relata.

No povoado de Martelo, a marisqueira Maria Helena dos Santos, que tem sua casa distante menos de dez metros dos dutos da Petrobras, informa que também sente os estranhos odores trazidos pelos ventos. “Tem dia de manhã que a gente acorda com uma neblina de pó esbranquiçado e aquele cheiro de urina”.

Hipertensa e mãe de dez filhos, a marisqueira afirma que nunca viu as empresas procurarem os moradores para a realização de trabalhos socioambientais e de esclarecimentos. A falta de informação faz com que a convivência tão próxima dos poços de petróleo gere temores de todos os tipos.  “Eu tenho medo de que aqueles canos explodam com a quentura do sol”, diz.

Vizinha de Dona Maria Helena, a estudante Aline de São Pedro, de 15 anos, confessa que as brincadeiras de infância eram realizadas dentro da área do poço de petróleo. “Eu e meus amigos brincávamos de bola dentro da zona proibida e até hoje os meninos brincam”, diz. Quando questionada sobre as placas de sinalização que avisavam sobre o perigo que corriam, Aline responde: “A gente tinha noção do perigo, mas como não tinha outro espaço pra brincar, era lá mesmo que a gente ficava”.

Além da falta de equipamentos de lazer e esportes, a população de Ilha de Maré (foto ao lado) também padece com a falta esgotamento sanitário. Como o esgoto não é tratado, os dejetos são depositados em fossas cavadas pelos próprios moradores ou, na maioria das vezes, são lançados nos manguezais e no mar. A assessoria de comunicação da Embasa, empresa responsável pelo esgotamento sanitário no Estado, informou que existe um projeto em elaboração para implantação do sistema de coleta de esgoto na ilha, mas sem nenhuma previsão para o início das obras.

De acordo com os moradores, a coleta do lixo é realizada de maneira precária pela Limpurb duas vezes por semana. O pescador Djalma Ernandes, morador da comunidade de Bananeiras, afirma que os agentes de limpeza só coletam o lixo na porta das casas até um determinado ponto do vilarejo. “Eles não pegam o lixo das casas mais distantes, não fazem o serviço completo, não varrem as ruas como fazem em todos os lugares de Salvador”, diz.

Impacto industrial – Nas proximidades da Ilha de Maré, principalmente nas localidades de BananPetrobraseiras, Porto do Cavalo e Martelo, estão instaladas indústrias químicas e também o Porto de Aratu (foto ao lado). Só pelo porto, que dá para ser visto de Bananeiras, de janeiro a outubro de 2010, passaram mais de 4,7 milhões de toneladas de produtos. Para se ter uma ideia do volume do carregamento, no mesmo período, o Porto de Salvador teve uma movimentação de 2,8 milhões de toneladas de cargas.

Entre os produtos que passam pelo porto estão amônia, buteno, nafta, soda cáustica e benzeno. De acordo com informações da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz ), em concentrações altas, por exemplo, na água, a amônia pode causar danos graves, já que o produto interfere no transporte do oxigênio pela hemoglobina dos organismos, podendo causar danos aos peixes, crustáceos e moluscos.

A marisqueira Roquilda José Bonfim conta que alguns moluscos não são mais encontrados, a exemplo do sururu. “Há uns dez anos, a gente pegava até três quilos de marisco por dia. Hoje, não dá quase nada”, declara a marisqueira, que atribui a diminuição do pescado à poluição.

“Há uns dez anos, a gente pegava até três quilos de marisco por dia. Hoje, não dá quase nada”, Roquilda José Bonfim, marisqueira

Entre as indústrias instaladas próximo à ilha está a maior unidade da Dow Química no Brasil, localizada na cidade de Candeias. A fábrica produz óxido de propileno, propilenoglicol, ácido clorídrico, soda cáustica e percloroetileno. O ácido clorídrico, por exemplo, é um produto extremamente corrosivo. A inalação do vapor pode causar ferimentos sérios. O líquido pode causar danos à pele e aos olhos e a ingestão, fatal. O produto é letal para peixes quando a sua concentração ultrapassa 25 µg/L.

A Petrobras também mantém instalações em Ilha de Maré. A Refinaria Landulpho Alves, com sede em São Francisco do Conde, produz propano, propeno, iso-butano, gás de cozinha, gasolina, nafta petroquímica, querosene comum e de aviação, parafinas, óleos combustíveis e asfaltos. A empresa petroleira mantém doze poços de extração em plena atividade na ilha.

JUSTIÇA
De acordo com a promotora de Justiça, Cristina Seixas, coordenadora do NBTS (Núcleo Baía de Todos-os-Santos), do Ministério Público, a instituição busca um diagnóstico ambiental da área, que sofre de um processo histórico de ocupação por indústrias, destruição da mata atlântica, entre outros problemas ambientais.

Esse diagnóstico, conforme Cristina, servirá de base para ações conjuntas das promotorias de Justiça que integram as comarcas banhadas pela Baía de Todos-os-Santos: Cachoeira, Candeias, Itaparica, Jaguaripe, Madre de Deus, Maragogipe, Salvador, São Félix, São Francisco do Conde, Saubara e Simões Filho.

A promotora informou ainda que foi instaurado um inquérito civil para apurar as causas da suposta mortandade da fauna marinha e das espécies que dela se alimentam, bem como das causas de supostos danos à saúde de moradores de Ilha de Maré, que seriam decorrentes da poluição ambiental provocada pelas diversas atividades econômicas desenvolvidas na área da Baía de Aratu e seu entorno.

Fotos: Leonardo Rattes

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