Ilha de Maré sofre com poluição ambiental

Por Leonardo Rattes e Mariana Alcântara

BananeiraEmbora a maioria dos estudos realizados para avaliar o impacto ambiental dos poluentes na BTS (Baía de Todos-os-Santos) tenha como foco a monitorização ambiental, novos estudos incluem a avaliação do risco aos seres humanos. É o caso da pesquisa conduzida pela professora da Escola de Nutrição da UFBA (Universidade Federal da Bahia), Neuza Miranda, que tem como tema A Saúde Ambiental em Ilha de Maré, Salvador-BA: Cenário e Propostas de Remediação. O estudo, realizado em dez povoados de Ilha de Maré, pertencente ao município de Salvador, e situada na região nordeste da BTS, teve como objetivo relacionar a exposição à contaminação ambiental com a dieta de famílias de pescadores e marisqueiras da região.

Para a execução da pesquisa, realizada nas comunidades de Amêndoa, Bananeiras, Neves, Itamoabo, Maracanã, Ponta Grossa, Santana, Praia Grande, Porto dos Cavalos e Martelo, a professora examinou amostras dos mariscos mais consumidos pela população local: o chumbinho (Anomalacardia brasiliana), o sururu (Mytella falcata) e o siri (Callinectes spp.). Além do pescado, o estudo também englobou a análise do sangue e do cabelo de 113 crianças de até seis anos de idade, com a finalidade de traçar um panorama dos níveis de chumbo presentes no organismo da população infantil de Ilha de Maré.

Chumbinho A análise do material coletado indicou que no chumbinho havia até dezesseis microgramas de chumbo por grama do marisco, isto é, uma concentração oito vezes maior do que o índice permitido pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). De acordo com o órgão, o limite máximo de chumbo presente nos alimentos deve ser de até 2 µg/g. O diagnóstico no siri e no sururu também ultrapassou os índices considerados toleráveis para a saúde humana, sendo de 2,17 µg/g e 3,19 µg/g, respectivamente.

Já a análise do chumbo no cabelo e sangue das crianças também indicou números alarmantes. Os resultados da pesquisa mostraram que há níveis de até 19,2 microgramas do metal pesado por decilitro de sangue. Os exames no cabelo apontaram que a quantidade de chumbo chega a 21,2 microgramas por grama de cabelo. Os dados da OMS (Organização Mundial de Saúde) consideram que o limite de concentração deste elemento químico no corpo humano deve ser de no máximo 10 µg.

Neuza Miranda explica que esses resultados apontam que a contaminação por metais pesados já foi incorporada pelo organismo dos moradores de Ilha de Maré por meio da cadeia alimentar. De acordo com ela, o metal pesado é prejudicial à saúde seja qual for a quantidade. “Grandes concentrações de chumbo podem causar inflamação no sistema nervoso central. Níveis baixos podem afetar o desenvolvimento mental e a gestação, além de causar anemias e doenças cardíacas”, informa a nutricionista. Ainda de acordo com ela, as crianças são as maiores afetadas por este tipo de exposição, já que as mesmas absorvem cinco vezes mais componentes químicos do que adultos.

“Grandes concentrações de chumbo podem causar inflamação no sistema nervoso central. Níveis baixos podem afetar o desenvolvimento mental e a gestação, além de causar anemias e doenças cardíacas”, Neuza Miranda, nutricionista

“Uma maneira de amenizar a ingestão de chumbo é diminuir a quantidade de alimentos provenientes do mar e aumentar o consumo de carnes, frango e legumes”, explica a professora. “No entanto, como fazer isto se a principal fonte de sobrevivência destas comunidades pobres é o mar? Pelas observações de campo realizadas ao longo da pesquisa, percebi que as políticas públicas para a segurança alimentar ainda não foram implantadas nessa parte de Salvador, que parece estar esquecida pelo governo em meio ao lucro proveniente das atividades industriais presentes na área”, finaliza.

RISCOS PARA A SAÚDE
Com cerca de 8,6 mil habitantes, segundo dados da Administração Regional das Ilhas de Salvador, órgão pertencente à Prefeitura Municipal, a Ilha de Maré é conhecida pelas praias de águas quentes e calmas e pelo artesanato, a exemplo das toalhas de renda de bilro, as cestarias com fibra de cana brava e o tradicional doce de banana na palha, alvo de desejo dos turistas que passam pelo local. No entanto, é a tradição do pescado, da mariscagem e da agricultura familiar que garantem a sobrevivência da população. O desaparecimento de peixes, crustáceos e moluscos tem afetado a vida dos  habitantes da região, que reclamam que a atividade da pesca tem sido prejudicada por conta da poluição.

De acordo com os moradores, os resíduos químicos das indústrias instaladas nas proximidades da ilha estão contaminando o ar e as águas do mar. Marizélia Carlos Lopes (foto ao lado), presidente da Colônia de Pescadores Z-4, de Ilha de Maré, afirma que a população da ilha sofre com constantes odores de produtos químicos trazidos pelos ventos norte e nordeste. “Tem dias que a gente acorda com um forte cheiro de amônia, a nossa garganta coça, os olhos ardem e a pele fica áspera”, diz.

Ela conta que as pessoas que sofrem de problemas respiratórios são os mais afetados. “Foi num dia em que o cheiro de amoníaco estava tão forte, que uma criança de cinco anos passou mal. Ela tinha asma e morreu. Não deu nem tempo de levar no posto de saúde”, lamenta.

“Foi num dia em que o cheiro de amoníaco estava tão forte, que uma criança de cinco anos passou mal. Ela tinha asma e morreu. Não deu nem tempo de levar no posto de saúde” Marizélia Carlos Lopes, presidente da Colônia de Pescadores Z-4

A população de toda a ilha dispõe de um único posto de saúde, uma unidade de Saúde da Família que funciona em Praia Grande. O atendimento de emergência ou urgência inexiste. Quem precisa desses serviços tem que solicitar o auxílio da ambulancha do Samu ou se deslocar para a capital ou Candeias. Marizélia relata que muitas vezes o serviço do Samu demorou para chegar. “Minha mãe teve uma problema na coluna, então liguei para o Samu, mas a lancha só chegou mais de seis horas depois”, relata.

No povoado de Martelo, a marisqueira Maria Helena dos Santos, que tem sua casa distante menos de dez metros dos dutos da Petrobras, informa que também sente os estranhos odores trazidos pelos ventos. “Tem dia de manhã que a gente acorda com uma neblina de pó esbranquiçado e aquele cheiro de urina”.

Hipertensa e mãe de dez filhos, a marisqueira afirma que nunca viu as empresas procurarem os moradores para a realização de trabalhos socioambientais e de esclarecimentos. A falta de informação faz com que a convivência tão próxima dos poços de petróleo gere temores de todos os tipos.  “Eu tenho medo de que aqueles canos explodam com a quentura do sol”, diz.

Vizinha de Dona Maria Helena, a estudante Aline de São Pedro, de 15 anos, confessa que as brincadeiras de infância eram realizadas dentro da área do poço de petróleo. “Eu e meus amigos brincávamos de bola dentro da zona proibida e até hoje os meninos brincam”, diz. Quando questionada sobre as placas de sinalização que avisavam sobre o perigo que corriam, Aline responde: “A gente tinha noção do perigo, mas como não tinha outro espaço pra brincar, era lá mesmo que a gente ficava”.

Além da falta de equipamentos de lazer e esportes, a população de Ilha de Maré (foto ao lado) também padece com a falta esgotamento sanitário. Como o esgoto não é tratado, os dejetos são depositados em fossas cavadas pelos próprios moradores ou, na maioria das vezes, são lançados nos manguezais e no mar. A assessoria de comunicação da Embasa, empresa responsável pelo esgotamento sanitário no Estado, informou que existe um projeto em elaboração para implantação do sistema de coleta de esgoto na ilha, mas sem nenhuma previsão para o início das obras.

De acordo com os moradores, a coleta do lixo é realizada de maneira precária pela Limpurb duas vezes por semana. O pescador Djalma Ernandes, morador da comunidade de Bananeiras, afirma que os agentes de limpeza só coletam o lixo na porta das casas até um determinado ponto do vilarejo. “Eles não pegam o lixo das casas mais distantes, não fazem o serviço completo, não varrem as ruas como fazem em todos os lugares de Salvador”, diz.

Impacto industrial – Nas proximidades da Ilha de Maré, principalmente nas localidades de BananPetrobraseiras, Porto do Cavalo e Martelo, estão instaladas indústrias químicas e também o Porto de Aratu (foto ao lado). Só pelo porto, que dá para ser visto de Bananeiras, de janeiro a outubro de 2010, passaram mais de 4,7 milhões de toneladas de produtos. Para se ter uma ideia do volume do carregamento, no mesmo período, o Porto de Salvador teve uma movimentação de 2,8 milhões de toneladas de cargas.

Entre os produtos que passam pelo porto estão amônia, buteno, nafta, soda cáustica e benzeno. De acordo com informações da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz ), em concentrações altas, por exemplo, na água, a amônia pode causar danos graves, já que o produto interfere no transporte do oxigênio pela hemoglobina dos organismos, podendo causar danos aos peixes, crustáceos e moluscos.

A marisqueira Roquilda José Bonfim conta que alguns moluscos não são mais encontrados, a exemplo do sururu. “Há uns dez anos, a gente pegava até três quilos de marisco por dia. Hoje, não dá quase nada”, declara a marisqueira, que atribui a diminuição do pescado à poluição.

“Há uns dez anos, a gente pegava até três quilos de marisco por dia. Hoje, não dá quase nada”, Roquilda José Bonfim, marisqueira

Entre as indústrias instaladas próximo à ilha está a maior unidade da Dow Química no Brasil, localizada na cidade de Candeias. A fábrica produz óxido de propileno, propilenoglicol, ácido clorídrico, soda cáustica e percloroetileno. O ácido clorídrico, por exemplo, é um produto extremamente corrosivo. A inalação do vapor pode causar ferimentos sérios. O líquido pode causar danos à pele e aos olhos e a ingestão, fatal. O produto é letal para peixes quando a sua concentração ultrapassa 25 µg/L.

A Petrobras também mantém instalações em Ilha de Maré. A Refinaria Landulpho Alves, com sede em São Francisco do Conde, produz propano, propeno, iso-butano, gás de cozinha, gasolina, nafta petroquímica, querosene comum e de aviação, parafinas, óleos combustíveis e asfaltos. A empresa petroleira mantém doze poços de extração em plena atividade na ilha.

JUSTIÇA
De acordo com a promotora de Justiça, Cristina Seixas, coordenadora do NBTS (Núcleo Baía de Todos-os-Santos), do Ministério Público, a instituição busca um diagnóstico ambiental da área, que sofre de um processo histórico de ocupação por indústrias, destruição da mata atlântica, entre outros problemas ambientais.

Esse diagnóstico, conforme Cristina, servirá de base para ações conjuntas das promotorias de Justiça que integram as comarcas banhadas pela Baía de Todos-os-Santos: Cachoeira, Candeias, Itaparica, Jaguaripe, Madre de Deus, Maragogipe, Salvador, São Félix, São Francisco do Conde, Saubara e Simões Filho.

A promotora informou ainda que foi instaurado um inquérito civil para apurar as causas da suposta mortandade da fauna marinha e das espécies que dela se alimentam, bem como das causas de supostos danos à saúde de moradores de Ilha de Maré, que seriam decorrentes da poluição ambiental provocada pelas diversas atividades econômicas desenvolvidas na área da Baía de Aratu e seu entorno.

Fotos: Leonardo Rattes

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Copa 2014 e os desafios da sustentabilidade

Por Luana Assiz

 A Fifa (Federação Internacional de Futebol) mantém uma extensa lista de exigências às quais os estádios das cidades-sede devem se adequar até o começo dos jogos da Copa. Uma delas está relacionada ao Green Goal, programa de sustentabilidade que prevê, em linhas gerais, a administração racional e eficiente da água e dos resíduos gerados, a economia de energia e o uso de sistemas públicos de transporte, projetados, inclusive, para o consumo eficiente de combustível. Para atender às recomendações ligadas diretamente à gestão municipal, o governo soteropolitano criou o projeto Salvador Sustentável – Copa Verde.

“Trabalhamos com um tema estratégico, que é a mobilidade urbana. A partir da implementação de uma rede integrada de transporte e, em particular, o BRT [Bus Rapid Transit – trânsito rápido por ônibus], criaremos uma alternativa viável para a população, possibilitando às pessoas deixarem o carro em casa e utilizarem o transporte público, que será mais barato e mais rápido”, afirma o coordenador do Ecopa (Escritório da Copa do Mundo da Fifa 2014), Leonel Leal Neto.

O BRT compreende um conjunto de vias exclusivas para ônibus, que interligará as regiões do Centro Histórico, Iguatemi, Aeroporto, Rodoviária, Terminal da Lapa e Estação do Metrô, no acesso Norte (BR-324).

O projeto pressupõe um sistema integrado de transporte, que oferece vantagens ao usuário, como a redução dos tempos de embarque e desembarque – em razão do grande número de portas dos veículos e da existência de plataformas niveladas ao piso do ônibus -, além do pagamento fora do veículo, estações fechadas e seguras e mapas de informação em tempo real. Desenvolvido pela Setin (Secretaria Municipal de Transportes e Infraestrutura), o projeto básico do novo sistema deve ficar pronto até o mês de março.

O engenheiro, arquiteto e urbanista alemão, Carl Von Hauenschild, faz ressalvas em relação ao sistema de ônibus rápido: “O BRT do aeroporto até a estação de metrô do Acesso Norte pode reduzir o número de carros individuais circulando nas avenidas Paralela e Bonocô, mas nas demais direções não ajuda”. Ele afirma que “este recurso  não é aproveitável para um transporte de massa (metrô) após o esgotamento da capacidade de transporte do BRT em 15 anos, conforme a Setin, então, não é um investimento sustentável a médio e longo prazos”.

Lançado em 2000 e com um investimento acumulado até agora em R$ 1 bilhão, o metrô de Salvador, que dos 41 quilômetros de extensão iniciais, terá apenas 6,5, deve ser uma das opções de transporte durante a Copa. Segundo Leal Neto, “a expectativa é de que este ano a fase de construção física fique 100% pronta e, ainda no primeiro semestre, o metrô entre em fase de testes”.

O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano para a Copa, que reúne todos os projetos de intervenção urbana inseridos nas dimensões econômica, social, ambiental e cultural, será divulgado pelo Ecopa na segunda quinzena de fevereiro. Segundo a assessoria de comunicação do escritório, a formatação física do projeto ainda não foi finalizada e sua pasta está em fase de validação pelos governos municipal, estadual e federal e por investidores. O documento define as obrigações dos agentes inseridos nas atividades preparatórias para o mundial e contém o cronograma e os relatórios necessários para que a cidade cumpra os compromissos assumidos coma  Fifa. Leal Neto assegura que “em 2012, as coisas estarão praticamente prontas, para que em 2013, tenhamos a Copa das Confederações”.

Leonel Leal Neto, coordenador do Ecopa: metrô deve entrar em fase de teste ainda neste semestre (Crédito: Ascom Ecopa)

ESTRATÉGIAS
A melhoria da iluminação pública, o estímulo ao uso de biocombustíveis, a delimitação do percentual de ocupação do solo e o monitoramento do ar estão entre as ações sustentáveis previstas pelo Ecopa. No final do ano passado, a Secretaria de Planejamento do Estado lançou a Rede Automática de Monitoramento da Qualidade do Ar, que teve um investimento de R$ 15 milhões. Desenvolvida pela Cetrel, empresa de proteção ambiental, com patrocínio da Braskem e apoio do Governo do Estado da Bahia e da Prefeitura Municipal de Salvador, a ação já iniciou a implementação de estações de monitoramento de ar na cidade.

Além dessas iniciativas, a prefeitura prevê intervenções mais intensas em áreas consideradas estratégicas para a Copa. A principal delas é o entorno da Arena Fonte Nova, que compreende a região que vai do bairro de Nazaré até o Comércio, o Porto de Salvador, onde o fluxo turístico decorrente da chegada de cruzeiros costuma provocar transtornos, o Centro Histórico e a Baía de Todos os Santos. Nessas localidades, serão realizadas, dentre outras ações, obras de microdrenagem – sistema responsável por retirar a água pluvial dos pavimentos das vias públicas -, sinalização turística e recuperação de calçadas. De acordo com Leal Neto, os projetos relacionados à Copa em andamento na capital baiana somam US$ 1,2 bilhão.

Projeto da Arena Fonte Nova é um dos focos para a Copa (Crédito: Assessoria de Imprensa da Odebrecht)

POLÊMICA
Toda a infra-estrutura planejada para a Copa gira em torno do lugar onde as emoções dos jogos serão vividas, de fato: a Arena Fonte Nova. Sua construção está em fase de remoção, reciclagem dos materiais de demolição e terraplanagem. De acordo com a assessoria de imprensa da Odebrecht, que junto com a OAS, BNDES e Banco do Nordeste forma o consórcio que pagará a obra, orçada em R$ 519,7 milhões, “todo o material resultante da demolição do antigo estádio passou pelo processo de reciclagem”.

Ainda segundo a assessoria, “ao todo, foram gerados aproximadamente 77,5 mil toneladas de materiais, que foram 100% reutilizados. De todo o material britado, 90% será reaproveitado na própria obra, e o restante, destinado a outras obras na Região Metropolitana de Salvador”. O projeto da arena atenderá ao programa Green Goal da Fifa, adotando medidas como economia de água, reuso do esgoto tratado, aproveitamento da água da chuva, diminuição e reciclagem do lixo gerado, sustentabilidade energética, ventilação e iluminação natural.

Von Hauenschild, sócio-diretor da Urplan, uma das empresas de planejamento urbano que apresentou proposta para a nova concepção do estrutural do estádio Otávio Mangabeira (Fonte Nova) e seu entorno, aponta aspectos não sustentáveis no projeto escolhido pelo governo estadual. De acordo com o arquiteto, a Fundação Instituto de Administração, instituição que avaliou as propostas, não considerou “as torres laterais (no local do Balbininho e no lado do grotão das piscinas), que todos os outros propuseram para gerar viabilidade econômica do empreendimento, que são incompatíveis com a legislação do tombamento do patrimônio histórico, paisagístico e cultural e o PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano)”.

Defensor da construção de uma arena poliesportiva, reformando as estruturas existentes no antigo estádio, o urbanista afirma que “o governo não quis a preservação da vila olímpica da Fonte Nova, sua modernização e reforma. Ele queria defender o futebol comercial, midiático e com fim lucrativo da Fifa contra os interesses da cidade e da população a qualquer custo”. Leonel Neto argumenta que a nova Fonte Nova “será uma arena multiuso, com restaurantes, centros de convenções, espaços para eventos simultâneos, lojas para venda de produtos, o que significará um equipamento público que poderá funcionar independentemente da existência de jogos”.

Carl Von Hauenschild: “No fundo, esta arena está preparada somente para a Copa” (crédito: João Eça)

Entrevista com Carl Von Hauenschild

– A Urplan apresentou ao governo um projeto de reforma da Fonte Nova que custaria R$ 176 milhões, somente para construir o estádio e, com shopping, ginásio, centro aquático e centro de convenções, custaria R$ 470 milhões, menos do que será investido na Arena Fonte Nova. Como você avalia a opção do governo pelo atual projeto?

Apesar de o manual da Fifa admitir estádio olímpico (poliesportivo), definiu em off uma diretriz que privilegia as “arenas de futebol” (monoesportivas). Nossa intenção ao enviar uma Proposta de Manifestação de Interesse (PMI) foi demonstrar que a vila olímpica (estádio poliesportivo, centro aquático e ginásio) da Fonte Nova é viável, traz um beneficio maior para a cidade, é compatível com as normas da Fifa e permite agregar áreas comerciais que rendem tanto que pagam o investimento como um todo e ainda geram uma modernização de todos os equipamentos, além de gerar praças por cima do sistema viário arterial que beneficia tanto Nazaré, quanto Brotas e o Dique. O governo do Estado não queria beneficio real para a cidade, queria satisfazer a Fifa de qualquer jeito em detrimento do interesse público e da cidade. Conforme a PMI, os critérios de avaliação eram a “sustentabilidade econômico-financeira, legal e ambiental”. Se a Fundação Instituto de Administração, instituição que avaliou as propostas, tivesse aplicado esses critérios, nenhuma outra proposta teria passado em função do tombamento do Dique do Tororó e as encostas do seu entorno. Quanto à sustentabilidade econômico-financeira, nossa modelagem tinha a melhor viabilidade, exigindo um investimento próprio somente de R$ 32 milhões pelo Estado, que agora pagou R$ 52 milhões (150% disto) somente para a implosão/demolição, e pagará R$ 1,61 bilhão em 15 anos, fora os investimentos do entorno.

– Por que você defendeu a reforma da Fonte Nova ao invés da demolição ou implosão do estádio?

Primeiro, a vila olímpica da Fonte Nova tem um alto valor histórico, cultural, social e funcional urbano na cidade de Salvador. É a primeira obra de equipamento social de grande porte feita em 1951, concebida pelo maior planejador da cidade em 1947/48, Mario Leal Ferreira, e pelo 1º plano diretor da Salvador, de 1949. É também a primeira grande obra de concreto armado da cidade, numa integração perfeita à paisagem do Dique e sua topografia, tombada como conjunto urbanístico junto com o Dique em 1959.  O estudo de análise estrutural demonstrou que toda a estrutura vertical estava em perfeito estado e podia ser adaptada com baixo custo às novas demandas de um estádio moderno, trocando a estrutura horizontal por uma estrutura pré-moldada, da mesma forma como o estádio olímpico de Berlim (de 1935) foi reformado para a Copa de 2006, na Alemanha. Tudo por um valor muito mais econômico, sem implodir um equipamento público com um valor imobiliário de cerca R$ 80 milhões, que custou R$ 52 milhões e permitia um obra muito mais rápida e muito menos impactante ao meio ambiente.

– No manual da Fifa para a Copa de 2014, existe o programa Green Goal, que exige ações sustentáveis na construção dos estádios, bem como nas intervenções urbanas, como o uso de sistemas públicos de transporte. Em que estágio Salvador se encontra em relação a essas diretrizes?

Não existe, até hoje, além do funcionamento do metrô entre o Acesso Norte e o Campo da Pólvora, nenhum outro sistema de transporte coletivo projetado para chegar à nova Fonte Nova. O projeto de urbanização do entorno e o estudo de impacto de vizinhança (EIV) ainda não foram apresentados, apesar de serem exigidos pela Fifa e pelo BNDES, para saber como vai ficar o movimento do público antes, durante e depois no meio deste sistema viário. Deve haver nas saídas e entradas de um estádio áreas livres para caber a quantidade de público que cabe em sua arena. Na nova Fonte Nova não cabe. Num grande jogo tipo BA-VI tinha arquibancadas cheias e cerca de 20 a 30mil pessoas fora do estádio fazendo a festa durante o jogo. Onde caberão estas pessoas? Onde caberão os inúmeros ônibus que esperam no fim do jogo os torcedores para embarcar? Nada está previsto neste sentido. No fundo, esta arena está preparada somente para a Copa, mas não para o pós-Copa e para os tipos de eventos futebolísticos tradicionais da cidade.

– Quais são os pontos mais críticos da cidade de Salvador, em termos de infra-estrutura, a serem melhorados para a Copa de 2014?

Para a Copa não correr risco de inundações, ainda é preciso investir muito em drenagem e separação de esgoto da rede de macro-drenagem, tendo em vista que junho/ julho podem ter grandes concentrações de chuvas (até 300 a 420mm/mês nos últimos 25 anos), isto em todas as áreas de circulação de turistas. Tapagem dos cursos d’água não é a solução para isto. Além disso, é preciso qualificação dos pontos turísticos da cidade, treinamento de pessoal para atendimento e receptivo, geração de novas praças para Fan Fests nos bairros e junto aos atrativos turísticos da cidade, acessibilidade ao estádio e às áreas de treino dos diversos pontos da cidade, inclusive com chuvas,  adequação do terminal de passageiros do aeroporto para a demanda e do porto para os cruzeiros, prevenção e treinamento para emergências e segurança pública.

UFBA: informação para mudar o consumo

Por Inês Costal e Jane Evangelista

Mostrar seu consumo diário de água. É essa a ideia central do Aguapura, programa de promoção do uso racional da água desenvolvido pela Teclim (Rede de Tecnologias Limpas), da UFBA (Universidade Federal da Bahia), que promove a economia mensal de R$200 mil para a universidade. A metodologia de identificação do padrão de consumo de água do local, que permite verificar aumentos e reduções diárias, parte do princípio de que ninguém quer desperdiçar e de que isso acontece por falta de informação. O modelo já foi adotado por indústrias e empresas baianas e se tornou decreto para todos os prédios públicos do Governo do Estado em 10 de janeiro de 2011.

“A gente trabalha para informar as pessoas sobre seu padrão de consumo e explicar a elas qual o nível atual da crise ambiental, e a pessoa que decida se faz algo ou se não quer fazer nada”, esclarece Asher Kiperstok, professor associado da escola Politécnica da UFBA e coordenador da Teclim. O sistema Aguapura Via Net permite que aqueles com acesso aos dados vejam os níveis de consumo a cada hora. Segundo o coordenador, “ninguém quer desperdiçar, se desperdiça é porque não conhece. É um projeto basicamente de informação, que dá resultados gigantescos com isso. Eu não estou dizendo para ninguém como se comportar, mas como ele está se comportando. E as pessoas agem a partir disso”.

O acompanhamento e a regulação dos gastos com água na UFBA começaram em 2005. Todos os dias, o consumo registrado no hidrômetro é verificado e inserido no sistema por cada unidade ou órgão. Os dados alimentam a geração de gráficos diários e mensais que demonstram quando há ocorrência de picos no consumo. Com a identificação de um padrão, e de suas alterações, é possível avaliar o uso da água a partir de outras variáveis, como o número de pessoas que circulam no local e a ocorrência de fatos atípicos, como a realização de eventos. Se algo fora do comum é identificado, a unidade precisa agir para minimizar perdas e evitar o desperdício. Nos dois anos seguintes, houve redução de 45% no consumo da universidade.

Foto: Jane Evangelista

MODELO
A gestão do consumo de água, no modelo do Aguapura, e de energia será desenvolvida também em todos os prédios públicos estaduais. O Programa de Racionalização do Consumo de Água e Energia começou a ser implantado pela Secretaria de Administração do Estado (Saeb) nos prédios que formam o Centro Administrativo da Bahia e em mais três órgãos: IMA (Instituto do Meio Ambiente), Ingá (Instituto de Gestão das Águas e Clima) e o Irdeb (Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia), estrategicamente escolhido para que a noção de racionalização seja mais disseminada. O conjunto de 17 prédios, que abrange 29 órgãos do Estado, foi escolhido para início do projeto por sua destinação administrativa comum, já que aqueles com fins industriais, hospitalares e comerciais exigem um trabalho diferente.

No CAB, assim como na UFBA, servidores são treinados para verificar diariamente o consumo de seu prédio junto à Coelba e à Embasa. Os integrantes dos ecotimes, nome dado ao grupo que participa diretamente do programa e acompanha os dados de consumo e mobiliza os demais colegas, tem que agir para resolver o problema caso os números indiquem gasto em demasia. Bolsistas da Teclim acompanham esses dados e também entram em contato quando há alguma mudança fora do comum. O projeto prevê a gestão dos prédios, não necessariamente a modificação deles, e cada um precisa prestar contas caso ultrapasse seu padrão de consumo.

Em todos os lugares, o sistema de racionalização de água e energia tem início com a apresentação do problema aos servidores. Para Francisco Lessa, pesquisador da Teclim à frente do projeto no CAB, não há como controlar o que não se conhece: “Se os servidores não veem as contas de água e energia, não sabem o quanto gastam e por isso não podem diminuir o consumo. Já capacitamos algumas pessoas em cada prédio, mas a ideia é que isso seja feito em larga escala”. Trabalho parecido também é desenvolvido na Fafen-BA (Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Bahia), unidade de negócio da Petrobras. Na Fafen, a pesquisa de racionalização de recursos hídricos é financiada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Bicombustíveis com recursos da Petrobras voltados para pesquisa e desenvolvimento.

Além da metodologia do Aguapura, na Fafen foi elaborado um balanço hídrico da fábrica que possibilitou a redução do descarte de efluentes. Segundo Elias Braga, engenheiro de processamento da Fafen, “a redução total do descarte de água é algo que ocorre a longo e médio prazos, já que é necessário mudar a tecnologia utilizada atualmente, mas o conhecimento sobre os recursos hídricos da região da fábrica e sobre como ele está sendo utilizado pela empresa ajuda a direcionar projetos de redução”. A lógica da prevenção da poluição, linha norte do trabalho da Teclim, parte do princípio de que ,antes de tratar os resíduos, deve-se evitar que ele seja gerado. Para os pesquisadores da rede, prevenir a poluição é acabar com o conceito de resíduo e se a lógica de pensar o processo de produção é modificada, esse material pode ser aproveitado em outra área.

DIVULGAÇÃO
Para atingir seu principal objetivo, a mudança de atitude do público usuário nos projetos, a Teclim investe em divulgação. “A divulgação se faz em duas vias. Uma é a via científica, que é a tradicional no meio acadêmico. Mas essa divulgação científica não atende o suficiente os nossos objetivos. Se eu quero mudar o mundo, eu não posso mudar só a cabeça dos cientistas“, ressalta Kiperstok. A segunda linha de divulgação realizada pela rede inclui palestras e encontros de mobilização do público usuário durante a formação dos ecotimes, sempre com a perspectiva de capacitar todos os trabalhadores do local. Em alguns casos, grupos de 400 a 800 pessoas já foram capacitadas.

Mas o trabalho, segundo Kiperstok, não é de educação: “Eu sou extremamente reativo a usar o termo educação ambiental. Eu acho que o conceito, com exceção de algumas pessoas sérias que trabalham com o assunto, está sendo extremamente desvirtuado para dizer aos outros fazerem o que você não faz. Virou aquele negócio de madame fazendo palestra na favela sobre porque que se deve separar o lixo, quando ela não questiona seu padrão de consumo, que é muito pior do que separar o lixo ou não”. O coordenador avalia que, mesmo com esforços na área de comunicação, o desempenho da rede em nível de divulgação é “péssimo”. Kiperstok afirma haver muita dificuldade para fazer a divulgação da lógica de prevenção e cuidado com o meio ambiente, mesmo dentro da universidade.

Poluição sonora: Salvador vai à Justiça

Por Lídice Oliveira

Uma das capitais mais barulhentas do país, Salvador, decidiu apelar para os acordos do tipo TAC (Termo de Ajuste de Conduta), na tentativa de enfrentar uma das faces do problema: os abusos sonoros na realização de shows e dos eventos em espaços públicos da cidade. Sob a chancela do Ministério Público da Bahia e da sociedade civil, dois termos já foram assinados nesse início de 2011. Um deles limita a, no máximo quatro, o número de megaeventos no bairro da Barra. O outro tem como alvo as produtoras musicais, e visa melhorar a equalização do som de shows e fomentar a implantação de casas de espetáculos em zonas adequadas.

Área que abriga pontos turísticos como o Farol da Barra, Cristo da Barra e Praia do Porto, a Barra é um dos locais preferidos para festejos e atos públicos de toda ordem, mas a frequência e o exagero dos decibéis desses eventos há muito tiram a paz dos moradores. Com o advento do TAC, essa situação tende a mudar. Por ano, só será permitida a realização do Carnaval, da comemoração da Independência da Bahia, das festas do Réveillon e do aniversário da cidade.

A Sucom (Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo), responsável pelos alvarás e fiscalização da Lei Municipal de Combate à Poluição Sonora, até poderá liberar outros quatro eventos no bairro, porém, a prioridade será para aqueles de caráter esportivo, turístico e cultural. Ainda assim, desde que sem uso de trio elétrico ou qualquer outra fonte geradora de impacto sonoro. E tem mais: o perfil do evento deverá estar em sintonia com o projeto “Rua do Lazer”, com realização, preferencialmente, no fim de semana e duração máxima de quatro horas.

Ministério Público assina TAC com produtoras culturais (foto Ascom-MTB)

O documento assinado com as produtoras musicais de Salvador, por sua vez, prevê a adoção de uma série de medidas, como o automonitoramento dos shows pelas realizadoras, mais rigor e disciplina no licenciamento pela Prefeitura, medição de ruído e Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV), além de gestões para instalar espaços para eventos musicais (uma carência na capital) em áreas indicadas pelo Estudo de Impactos Sonoros e Urbanísticos de Shows em Salvador e Entorno – Recomendações para Implementação de Melhorias.

CARGA NA BAIXA FREQUÊNCIA

Encomendado pelo Ministério Público da Bahia, o estudo foi realizado por uma equipe multidisciplinar, com apoio da própria APA (Associação dos Produtores de Axé para o Desenvolvimento da Música da Bahia), também signatária do TAC, ao lado da Sucom e de dez produtoras musicais. O trabalho também contempla o planejamento urbanístico, mas no que tange à emissão de ruídos conclui que boa parte do barulho causado pelos eventos musicais na capital baiana decorre do exagero no uso da sonorização grave de baixa frequência em nível elevado de decibéis (acima de 70dB).

Esse hábito aumentaria a propagação aérea e estrutural do som, diz o estudo, causando a poluição sonora e aumentando os riscos à saúde de quem está exposto. Portanto, vencer a resistência de músicos e técnicos de som e conscientizá-los da necessidade de mudar essa prática seria um dos principais desafios. E o apelo da proteção à saúde pode ser um dos caminhos.

De acordo com pesquisa anexada ao Estudo de Impactos Sonoros, em um grupo de 287 trabalhadores de 18 bandas de trio elétricos de Salvador, a prevalência de perda auditiva induzida pelo ruído foi de 40,6% da população estudada. Elaborada pelos médicos do trabalho Carlos Roberto Miranda e Carlos Roberto Dias, a pesquisa mostrou que os contrarregras são os mais afetados (44,4%), seguidos pelo pessoal da produção (41,2%). Já entre os músicos, há maior ocorrência entre os baixistas (57,1%) e bateristas (46,2%). Mas o dano auditivo está longe de ser o único mal causado à saúde.

Estudos vinculam a exposição a ruídos, sobretudo nas zonas urbanas, a casos de insônia, ansiedade, hipertensão, depressão, dores de cabeça, doenças cardiológicas e neurológicas. E o coração pode ser um dos mais prejudicados, inclusive com aumento do risco de infarto em homens e mulheres submetidos, de modo crônico, ao estresse dos barulhos ambientais.

Em Salvador, existem outras particularidades que concorrem para potencializar esse problema na área musical. Uma delas é a localização urbanística inadequada e infraestrutura subdimensionada para o tipo e porte do show. Sobre esse aspecto, o estudo realizou medições em 51 espaços da capital (entre eles estão o Cais Dourado, Concha Acústica, Museu du Ritmo, Farol da Barra), listando, ao final, algumas zonas propícias para futuros investimentos na instalação de casas de espetáculos na cidade.

Convencida de que nada ocorrerá num estalar de dedos, a promotora de Justiça do Ministério Público baiano, Hortênsia Pinho, acredita, que o TAC é “um divisor de águas” e um marco, pensado para atuar nas causas do problema. A expectativa, ela diz, é que a partir de agora haja mais disciplina nos licenciamentos concedidos pela Prefeitura e, do lado das produtoras, uma busca efetiva pela sustentabilidade dos eventos que promovem.

Promotora Hortênsia Pinho (foto Ascom-MPB)       

“Não estamos preocupados apenas com a poluição sonora, mas com o fato de ela também ser um vetor da violência”, afirma a promotora, ao lembrar o impacto que grandes eventos musicais – devido ao fluxo intenso de pessoas – costuma exercer sobre o trânsito, comércio ambulante e atividades diversas, muitas das quais ilícitas, como o tráfico de drogas e a prostituição.

No caso da agenda anual de eventos da Barra, os efeitos positivos serão mais imediatos, diz a promotora, já que envolve principalmente novas diretrizes para a concessão de alvarás, além da fiscalização para impedir infrações ao novo limite imposto. E para quem reside no bairro, a redução chegou em boa hora.

“É uma medida importante e esperamos que seja cumprida, senão, seremos os futuros surdos da Barra”, afirma a presidente da Amabarra (Associação de Moradores e Amigos da Barra), Regina Macedo, residente no bairro há 37 anos. A entidade foi uma das que assinaram o documento, do qual também participam a SOS Barra e o Movimento Vozes de Salvador, além da Prefeitura, através da Empresa Salvador de Turismo (Saltur) e Sucom.

Lei é considerada tolerante

Na opinião do antropólogo e professor Ordep Serra, mesmo durante o Carnaval deveria haver regulamentação, para resgatar a musicalidade típica da Bahia em detrimento dos altos volumes que imperam nos dias de hoje. “O trio elétrico é uma invenção bonita, mas tolerar cinco a sete trios enfileirados e todos tocando ao mesmo tempo é uma estupidez”, critica. “E uma coisa é berro; outra é música”, pondera.

“Por ano, já estávamos chegando perto de 40 eventos na Barra, e até passeata com cachorro tinha carro de som, e som alto, uma tortura para os animais”, reclama Serra, que é coordenador do Movimento Vozes de Salvador. A limitação de eventos no bairro é resultado de negociação, mas, se depender do representante da sociedade civil, é só o começo da luta.

“Num segundo momento, vamos fazer o possível para que a nossa legislação mude e deixe de ser inconstitucional”, afirma o antropólogo, referindo-se aos limites de decibéis da Lei do Silêncio de Salvador (Lei nº 5.354/98), que são superiores ao impostos pela legislação federal. No Estudo de Impactos Sonoros, o assunto também é abordado, igualmente em defesa de ajustes na lei soteropolitana.

O trabalho faz um comparativo entre as legislações das capitais e chega à conclusão de que 13 delas, entre as quais Salvador, descumprem a da União, com as suas leis “mais permissivas”. Na capital baiana, essa permissividade seria tolerar ruídos de 60 decibéis, entre 22h e 7h, e de até 70 decibéis, no período das 7h às 22 horas, embora a OMS (Organização Mundial de Saúde) sustente que o limite tolerável pelo ouvido humano é de 65 decibéis e a lei federal estabeleça para a zona residencial urbana um nível máximo de 55 dB durante o dia e de 50 dB no período noturno.  Em meio a esse cenário, a população de Salvador continua fazendo muita zoada, mas também reclama.

POTÊNCIA ELÉTRICA
O Ministério Público não dispõe de levantamento das queixas, mas os números da Sucom dão uma medida do problema na cidade: em 2010 o órgão fiscalizador recebeu 52 mil reclamações, notificou 1.610 poluidores, emitiu 870 autos de infração e realizou 455 apreensões. Embora mais de 60% das queixas sejam relativas às residências e veículos, não faltam protestos devido ao som alto em bares e restaurantes, igrejas, obras e festas em local público. A poluição ambiental vem de todo lado, a qualquer hora do dia.

Apreensão de aparelhos de som de veículos (foto Ascom- Sucom)

Os carros de passeio, responsáveis por 42% das queixas, merecem atenção especial. O subgerente de Fiscalização e Prevenção à Poluição Sonora da Sucom, José Araújo, conta que agentes do órgão já apreenderam equipamentos que batiam a marca de 110 decibéis, índice superior ao nível atingido por um trio elétrico, que oscila de 107 a 109, segundo a Sucom. Na média, os decibelímetros acusam abusos que vão de 85dB a 90 dB. Para a promotora Hortênsia Pinho, nesses casos autuar só não basta: o remédio é apreender a aparelhagem, o que implica penalidades que vão de R$ 1,2 mil a R$ 100 mil. E não falta quem endosse o coro a favor da repressão aos infratores.  “A multa é educativa”, opina Ordep Serra.

Com a moda dos carros “envenenados de decibéis”, a Sucom tem feito operações e atendido denúncias, sobretudo, nos finais de semana, quando o lazer para muitos jovens é parar o seu automóvel em um posto de combustíveis e abrir a mala para compartilhar o seu gosto musical em alto volume. “O nosso depósito está lotado de equipamentos apreendidos”, conta Araújo. Ainda assim, o órgão municipal registra uma demanda reprimida de atendimento de aproximadamente 40%.

HOMEM POLUI MAIS

Um levantamento feito pela Sucom com base em 160 dos 455 infratores penalizados com apreensões em 2010 revelou que o típico poluidor da capital baiana é do sexo masculino, tem entre 26 e 35 anos e reside nos bairros de Pernambués, Brotas, Cosme de Farias, Pituba, Barra e São Caetano. Eles representam 37% da amostragem, enquanto os homens de 18 a 25 anos, que moram em Brotas, Pernambués, São Caetano, Bonfim, Pituba, Cajazeiras e Vila Laura, ocupam a segunda posição no ranking dos que mais desrespeitam a lei ambiental, com participação de 26% do total.  Já as mulheres, contribuem com apenas 10% do barulho.

O trabalho mostrou ainda que a maioria dos infratores da Lei do Silêncio liga os seus aparelhos em 87 decibéis, em média. “As pessoas estão viciadas em som alto”, constata o gerente de Fiscalização e Prevenção à Poluição Sonora da Sucom, Elmo Costa. “Percebemos que muitos dos autuados ignoram as regras de boa convivência e a própria legislação”, afirma.

Embora sem caráter científico, o levantamento deverá servir de base para as ações educativas da Sucom a partir deste ano. Uma dessas iniciativas foi testada, inclusive, durante o tradicional Festival de Verão, megaevento musical realizado no Parque de Exposições de Salvador, em fevereiro último. Para atrair a atenção dos jovens, o órgão montou um estande vistoso, com os próprios aparelhos e caixas de som apreendidos durante as fiscalizações. A “instalação” foi o chamariz para divulgar a campanha “Som alto tem lugar”, como forma de conscientizar o público sobre a lei ambiental e os riscos do barulho excessivo para a saúde.

Ao longo do ano, o gerente Elmo Costa diz que terão seguimento palestras em colégios e faculdades com essa mesma finalidade, e o plano é também fechar convênio com postos de combustíveis da capital, com a proposta de melhorar a fiscalização.

A ideia é instalar um sistema de videomonitoramento com câmeras nos postos, para coibir a prática de motoristas que usam esses estabelecimentos para encontros sempre animados pelo som nas alturas. As imagens serão monitoradas pela internet, favorecendo o rápido deslocamento dos fiscais até a fonte do barulho. Segundo Costa, a cidade tem 20 postos problemáticos, e a tendência é que o projeto se concentre, inicialmente, nesses locais.

 MADRUGADA

Moradora do bairro do Garcia, área central de Salvador, a jornalista Maria José Quadros recorda de uma experiência desagradável que viveu, há três anos, na madrugada da Quarta-Feira de Cinzas, quando acordou sobressaltada com os gritos de um homem. Passado o susto e perdido o sono, ela descobriu que se tratava de um pastor em ação. Ele usava o microfone, aos berros e sem nenhum constrangimento, durante vigília da sua igreja. “Alugaram o espaço do colégio vizinho ao meu prédio, e fui acordada pela gritaria; cheguei a pensar que alguém era vítima de violência”, conta Maria José.

Ela, frequentemente, sofre aos sábados com o som de apresentações musicais no mesmo colégio.  “Até à 22horas, fica difícil ver TV ou ler um livro”. Para a jornalista, a base do problema é a deterioração da educação, com reflexo direto no descaso com as normas de convivência social. “Em que pese o brasileiro ser mais extrovertido, solto e rir abertamente, percebemos hoje que esse comportamento extrapolou muito o limite e passou a ser falta de educação mesmo”, opina.

O profissional liberal Roberto Dias tem opinião parecida. “Poluição sonora é, acima de tudo, falta de preocupação com o outro”, diz ele, que reside na Pituba, bairro da orla que lidera o ranking das reclamações de poluição sonora em Salvador (veja lista abaixo). E ele é um bom exemplo de que medidas simples e até baratas, se comparadas aos gastos que muitos poluidores têm hoje para turbinar os seus carros e perturbar o sossego alheio, podem evitar transtornos sem limar o prazer da música.

Fã de filmes, boa música e som de qualidade, ele montou um home theater potente em seu apartamento, mas teve o cuidado de investir na proteção acústica para evitar possíveis vazamentos sonoros e, consequentemente, incômodo aos vizinhos. O resultado é uma convivência até hoje harmoniosa no prédio, onde até mesmo as comemorações no salão de festas deixaram de ser motivo de queixas por causa de som alto.

Em reunião do condomínio, os moradores decidiram, há cerca de quatro anos, reservar um espaço contíguo ao salão para a danceteria, cuja porta reduz a propagação do som para os apartamentos do primeiro andar, e até mesmo para o próprio salão de festas.

“Assim, não há prejuízo para os demais moradores nem para quem está curtindo a festa”, conta Dias, que planeja comprar uma guitarra, mas avisa que vai estudar no seu home isolado acusticamente, para não perturbar sequer a própria família com os deslizes típicos de músico de fim de semana e, ainda por cima, iniciante. 

FLAGRANTES

 A música não é única vilã, mas em uma cidade musical e vibrante como Salvador, ela está no centro de grande parte dos casos envolvendo poluição sonora. Abaixo, três situações reais que evidenciam isso e dão pistas do trabalho educativo (com programas e campanhas permanentes nas mídias populares) e repressivo que ainda terá de ser feito pelos órgãos competentes, sob pena de agravar o problema ambiental e os índices de qualidade de vida na cidade.

Cena 1: “Por favor, não me leve a mal, mas o senhor pode abaixar o volume,  porque o meu pai tem 90 anos e está doente?”

“Não! Eu estou na rua; não estou dentro da sua casa”. (O morador barulhento havia colocado as caixas de som no passeio público diante da sua casa, com volume nas alturas, incomodando toda a vizinhança. Ele não atendeu aos apelos do vizinho.).

Cena 2: Passageira entra em ônibus para o Engenho Velho da Federação, na altura da Avenida Joana Angélica, e se depara com três pessoas com celulares tocando música simultaneamente. Perto do cobrador, dois adolescentes que dividiam o mesmo banco poluíam o ambiente: um tocava (e cantava) um funk; o outro ouvia música eletrônica. Mais à frente, outro passageiro ouvia música gospel, em meio ao barulho do motor do veículo, sons típicos do trânsito e vozes das pessoas conversando.

Cena 3: Em janeiro deste ano, paciente aguarda consulta no centro médico de um grande e tradicional hospital de Salvador. No local, a TV está ligada na novela das 18 horas, para entreter as pessoas durante a espera. Há quatro pessoas no local. De repente, uma das pacientes liga o celular e obriga todos a ouvir uma canção gospel e, em seguida, um pop da cantora Adriana Calcanhoto. Ao final da execução, ela não só repete o repertório, como canta as duas músicas, acompanhando as artistas. Na sala, as pessoas aguardavam as suas consultas com cardiologista e pneumologista.

Bairros campeões de barulho

1º Pituba
2º Liberdade
3º Itapuã
4º Pernambués
5º Uruguai
6º Boca do Rio
7º Ribeira
8º São Caetano
9º Federação
10º Brotas

Fonte: Sucom

Reclamações em Salvador

(por fonte sonora)

VEÍCULO PARTICULAR 21928 42,13%
RESIDÊNCIA 10352 19,89%
BAR/RESTAURANTE/BOATES 8855 17,01%
IGREJA/CULTO 1988 3,82%
ESTABELECIMENTOS COMERCIAS 1745 3,35%
CONSTRUÇÃO 1393 2,68%
OUTROS 1348 2,59%
ÁREA PÚBLICA 1274 2,45%
BARRACAS 1006 1,93%
CARRO DE SOM 470 0,90%
ESCOLA 369 0,71%
CLUBE 270 0,52%
ACADEMIA 230 0,44%
OFICINAS 205 0,39%
RÁDIO COMUNITÁRIA 121 0,23%
ESPAÇO CULTURAL 119 0,23%
BARRACA DE PRAIA 117 0,22%
ANIMAIS 98 0,19%
TRIO ELÉTRICO/BLOCOS 96 0,18%
FÁBRICA 50 0,10%
ESTÚDIOS 17 0,03%
PEDREIRAS 1 0,00%
TOTAL 52.052 100,00%
Fonte: Sucom    

Contexto humano, ciência e meio ambiente

O meio ambiente é humano. Crédito: http://www.revistanordeste.com.br

Por Henrique Oliveira

Os “entendimentos” humanos ou as ideias que as pessoas têm do mundo são, por essência, complexas. Os seres humanos, mesmo com sua racionalidade, nunca têm opiniões e afinidades semeadas em um terreno único de fórmulas ou teoremas. Acreditar ou não em determinada premissa ou lei vai além de uma simples crença na irrefutabilidade matemática de conceitos ou na (re)produção de pressupostos. A humanidade é uma eterna busca: ela  nunca chega ao termo dos seus conhecimentos e sempre procura entender de maneiras distintas (e entrecortadas por experiências) as  ideias que antes pareciam cristalizadas em saberes “intocáveis”, distantes, inquestionáveis. A ciência parece conduzir a apenas uma certeza: a de que ela está para além dos seus próprios resultados práticos e que as ditas verdades científicas se misturam a fatores que brotam da condição humana em si.

O pesquisador Marcos Pires Leodoro*, nos chama a atenção para o fato de que a ciência e os cientistas “estão sujeitos às tensões das dimensões intelectuais, pessoais e sociais da condição humana”. Ou seja, seria admissível que se imaginasse numa ciência “válida”  a presença das humanidades, das filosofias, dos preconceitos… Em outras palavras, a ciência e seus praticantes não podem se esquivar do seu lugar social.

Por isso, nossas concepções de ciência e o próprio fazer científico sempre estarão em contato com as representações dominantes do contexto social que nos engloba.  Thomas Khun* em seus estudos sobre as revoluções científicas já nos dava uma pista da complexidade da conformação dos nossos entendimentos de ciência. Para ele, um grupo social (e aqui ele vai discutir muito mais do que uma ciência “pura”) não poderia praticar seus ofícios sem recorrer a uma gama de crenças preconcebidas. Essas crenças, para Khun, não poderiam ser previstas ou padronizadas, uma vez que eram necessariamente arbitrárias em alguns de seus componentes: “a observação e a experiência podem e devem restringir a extensão das crenças admissíveis, porque de outro modo não haveria ciência. Mas, não podem, por si só, determinar um conjunto específico de semelhantes crenças. Um elemento aparentemente arbitrário, composto de acidentes pessoais e históricos, é sempre um ingrediente formador das crenças esposadas de uma comunidade científica específica numa determinada época”, afirma  o pesquisador.

Em outras palavras, a ciência não se dá por si só. Ela está imersa num enorme contexto social humano e esse contexto determina várias de suas características formadoras. Vejam:

 

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As ideias formadas a respeito do que somos e do ambiente que nos engloba são, então, essenciais para o advento dos ditos “entendimentos científicos” em qualquer campo. Todas essas revoluções provocadas pela ciência, com certeza impactam na nossa forma de interagir com o meio que nos cerca. A ciência e seus resultados são formas com as quais enxergamos e experimentamos nosso próprio mundo. A interação do homem com o seu meio e as modificações advindas daí talvez sejam as definições mais completas do que hoje chamamos de meio ambiente.

De acordo com interessante definição contida no segundo volume da Coleção Cartilhas de Direitos Humanos da plataforma Dhesca Brasil, meio ambiente  é “o conjunto de todo o patrimônio natural ou físi­co (água, ar, solo, energia, fauna, flora), artificial (edificações, equi­pamentos e alterações produzidas pelo homem) e cultural (costu­mes, leis, religião, criação artís­tica, linguagem, conhecimentos) que possibilite o desenvolvimento equilibrado da vida em todas as suas formas”. Ou seja, não se pode pensar o  conceito de meio ambiente ou mesmo de vida sustentável se esquecermos de que tudo isso está ligado (como nos demonstrou o documentário acima) às nossas formas de organização políticas, científicas, tecnológicas e culturais.

A Ciência e suas evoluções na busca pela preservação ambiental da humanidade não devem cair no engano do “discurso das florestas”. Não é possível que se imagine que a integração dos sujeitos com o seu meio e as formas científicas de intervenção nessa área estejam alheias ao contexto social e cultural dos grupos humanos. Desde o início das discussões ambientais já não se falava em preservação das matas sem sustentação sócio-econômica. Para que tenhamos uma ideia, a famosa conferência de Estocolmo, realizada pelas Nações Unidas em 1972, já se nomeava “Conferência das Nações Unidas sobre o Meio ambiente Humano”. A “Rio 92”, que tinha como principal meta atrair a atenção mundial para a questão ambiental, já entendia da mesma forma que o meio ambiente estava intrinsecamente ligado aos nossos padrões culturais de consumo.

Em outras palavras, quando falamos em ciência e meio ambiente, não falamos de coisas estanques. A floresta não se preserva sem modificação dos entendimentos humanos sobre seu próprio contexto. Da mesma forma que a ciência não avança para qualquer campo sem a influência direta da nossa cultura…

Somente com esse entendimento, poderemos falar e (o que é melhor) praticar uma real integração sustentada entre humanidade, ciência e meio ambiente.

*Fontes:

KHUN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas – Ed. Perspectiva, 2009.

LEODORO, Marcos Pires. Pensamento, Cultura Científica e Educação – Tese de Doutorado – Universidade de São Paulo – USP – 2005.

Marketing verde ganha espaço na construção

Por Adriana Rodrigues, Cristiana Nery e Renata de Santana

Ser “amigo da natureza” parece ser a vontade de muitos consumidores que se deparam com o conflito entre o consumo e a preservação ambiental. Mas mudar hábitos não é uma tarefa fácil e, para muitos a solução, está nos produtos eco, que oferecem o prazer da compra aliado à sustentabilidade. É neste cenário que surge o marketing verde, um movimento que está se consolidando no mercado. São anúncios de produtos com características sustentáveis, com valor agregado tanto na sua produção, quanto na hora da venda. Com o aumento do interesse da população, os empresários investem neste setor e encontram no marketing verde uma forma de expandir os negócios. Diversos itens já foram lançados e o mercado imobiliário é um dos setores mais interessados nesse público e movimento.

“Não estamos falando de uma tendência. É uma necessidade, quase uma obrigatoriedade. As pessoas já possuem a preocupação com o futuro do planeta e, no momento da compra, se os produtos forem parecidos e custarem o mesmo valor, naturalmente o consumidor opta pelo que preserva o meio ambiente, com um sentimento de consciência limpa, o velho conceito de fiz minha parte comprando um produto com selo verde”, comenta Michele Estevez, diretora de atendimento da Propeg Bahia, responsável por campanhas publicitárias neste segmento.

Michele acredita que o maior desafio para os empresários da construção civil é justamente conseguir produtos ecologicamente responsáveis com preços competitivos, pois, apesar da consciência do consumidor, o custo dos produtos ainda é o critério decisivo. “Diante disso, temos que explicar que uso racional da luz reduz a conta e que, com aproveitamento de água das chuvas, o custo da conta de água também cai. Aí sim o consumidor, independente do seu compromisso com o meio ambiente, se interessa, pois vai fazer uma economia nos custos mensais”, esclarece.

Foram estes conceitos que influenciaram a campanha de lançamento do Greenville, um empreendimento da construtora Agre que usou o marketing verde como atrativo. Gabriela Tourinho, arquiteta responsável pelo marketing da incorporadora, também acredita que parte da população está consciente, mas acredita que na hora de fechar negócio as pessoas acabam optando pelo valor que cabe no bolso. “Infelizmente a maior parte das características que levam o título de ecológico ainda não tem custo acessível a todo o mercado, então o primeiro fator determinante é este. Paralelo a isto tem a questão da conscientização do público, na maior parte dos produtos de médio e alto padrão os clientes já estão mais conscientes e pedem esta segmentação”, completa.

Apesar do apelo das campanhas publicitárias, o engenheiro mecatrônico Leonardo Araujo, reconhece que não foi influenciado pelos anúncios eco que teve acesso ao comprar seu primeiro imóvel. Ele adquiriu um apartamento em um dos empreendimentos mais sustentáveis da cidade, mas confessa que sua conscientização ambiental não atingiu o nível de determinar suas compras. “Soube que o prédio é todo ecológico, mas não apurei a fundo. O corretor explicou tudo para minha esposa e recebemos os documentos e panfletos com material reciclado. Admito que não me envolvi muito nesta questão, ainda não sou influenciado pelo marketing verde. Depois que comprei e soube de tudo, fiquei feliz, pois percebi que fiz uma boa escolha e que ainda poderei ajudar a natureza e economizar com o aproveitamento de águas pluviais e de energia”, completa.

SUSTENTABILIDADE
O marketing verde é novo no país. Não é possível ainda mensurar quanto o termo eco pode agregar ao valor final de um produto. Não só por consequência do alto custo na implantação dos serviços sustentáveis como também por se tratar de um diferencial. E, por ser diferente, ganha valor na publicidade.

Essa supervalorização de produtos sustentáveis preocupa a engenheira civil e coordenadora do curso de Engenharia Ambiental da Unificas, Lydiane Leal. Para ela, o consumidor consciente deve estar atento para saber diferenciar um discurso de marketing verde vazio de produtos sérios e conscientes. “Muitos lançamentos são sérios, mas outros utilizam este discurso apenas para promover o produto. Alguns, por exemplo, anunciam a coleta seletiva no imóvel, mas o lixo acaba não sendo destinado para o tratamento adequado. Ou seja, o comprador paga pelo diferencial, mas no fim a coleta não acontece”, destaca.

Ela acrescenta ainda que, se houver mesmo o interesse por parte da construtora, as práticas sustentáveis podem ser usadas desde a obra e o consumidor precisa exigir isto. “É possível dar o destino adequado para os resíduos, encaminhar os entulhos, ferros e demais itens para o descarte adequado. O consumidor precisa entender que um empreendimento ecologicamente correto é aquele que é autossustentável e, não apenas o que preserva áreas verdes. Até porque muitas vezes essas áreas já são preservadas por lei e mesmo assim são usadas como diferenciais em propagandas”, ressalta.

Michele Estevez também acha que o empreendimento precisa explorar diversas ferramentas ecológicas. “O aproveitamento da água das chuvas, sistema de esgoto a vácuo, a não-utilização de formas de madeira na construção, a redução do lixo, o uso racional e o reaproveitamento de energia são algumas medidas que contribuem para a preservação ambiental. Essa preocupação deve estar presente desde a concepção do projeto até a construção e manutenção do prédio. Quem opta por utilizar esse argumento apenas como marketing acaba com um discurso sem fundamento, sem base e, com isso, a tendência é desaparecer”, explica.

É fundamental também que o consumidor conheça as leis para poder identificar quais práticas foram estabelecidas pelos órgãos reguladores e quais foram adotadas por consciência da construtora.

O uso de determinações legais como diferencial para o empreendimento é comum, por exemplo, na questão da preservação de área verde. Dessa forma, o consumidor precisa conhecer a legislação para identificar quais áreas foram mantidas pelas empresas e quais fazem parte da vegetação protegida por lei.

Com mais atenção na hora da compra, os consumidores conscientes podem minimizar os impactos e devem entender que, além das opções sugeridas pelos empreendimentos, há outras práticas que só dependem da consciência de cada um. “Quem vai comprar tem que ser consciente, não só na compra, mas também nas suas rotinas, que, muitas vezes, independem dos sistemas instalados nos imóveis”, conclui a professora Lydiane.

Esgotamento sanitário degrada os rios e fontes

Por Raimundo de Santana e  Silvana Pereira

Em 2010, Salvador abrigou dois importantes eventos sobre a problemática de suas águas e de seu esgotamento sanitário. Um, em março, trouxe à tona um sistemático e robusto estudo – O Caminho das Águas em Salvador – Bacias Hidrográficas, Bairros e Fontes; o outro, em dezembro, cumprindo a exigência legal de Audiência Pública, tratou da apresentação por parte da Prefeitura do PMSB (Plano Municipal de Saneamento Básico ), no que diz respeito apenas à água e ao esgoto.

Pela magnitude dos temas, a repercussão desses eventos ficou restrita a especialistas. Não é exagero, mas o impacto na opinião pública de ambos foi baixo, sem grandes repercussões.

 No primeiro evento, pesquisa financiada pelo CNPq sob organização de professores-pesquisadores, agrupados no Ciags-Ufba (Centro Interdisciplinar de Desenvolvimento e Gestão Social), mapeou, a partir de 2007, 12 rios que cortam a capital, e analisou a qualidade de suas águas e fontes. Conclui-se neste estudo, por exemplo, que a ocupação desordenada do uso do solo da capital e a ausência de uma política pública urbano-ambiental têm piorado a qualidade de vida na cidade, pondo em xeque os recursos ambientais e a inclusão social.

Bacias hidrográficas rios jaguaribe e ipitanga
Bacias hidrográficas rios jaguaribe e ipitanga

O estudo, portanto, é um importante instrumento para correção de rumo. Isto é, traz indicadores sobre a qualidade das águas, o acesso aos serviços públicos de saneamento básico, e as delimitações das bacias hidrográficas e a dos bairros de Salvador. Oferece aos poderes públicos e à sociedade em geral, um estudo sério e consistente parauma política pública de saneamento básico.


Embrulha e manda – 
Já na audiência do PMSB, ocorrida no dia 15 de dezembro de 2010, as coisas já começaram equivocadas. O evento, ocorrido no auditório Leopoldo Amaral, da Escola Politécnica da Ufba, foi esvaziado  principalmente porque não  explicitou as diferentes demandas sociais da cidade que, aliás, não são poucas.  Na verdade, o evento apenas cumpriu formalidades: a existência do Plano de Saneamento Básico é uma imposição das Leis municipal n. 7.400/2008 – Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Salvador (PDDU) e federal n. 11.445/2007.

No ritmo embrulha e manda, a Embasa, empresa concessionária dos serviços públicos de água e esgoto, e a Prefeitura tiveram que correr contra o tempo, elaborar e apresentar o PMSB e assim renovar a concessão para prestação dos serviços de água e esgoto da capital. O PMSB tem validade de 20 anos e terá que passar pelo crivo das discussões na Câmara de Vereadores de Salvador e só depois seguir para o gabinete do prefeito para ser sancionado ou não.

O engenheiro Roberto Falcão de Almeida Souza, que preside a Comissão Executiva do PMSB (SETIN/PMS), acha que a Audiência Pública não foi esvaziada. “Foram 117 participantes, mas o processo de diagnóstico,
que começou em 2007, foi acelerado desde março de 2010. Obviamente, que gostaríamos que fosse uma audiência maior. Na consulta disponível na internet, essa  pequena participação também aconteceu, notamos que várias pessoas baixaram o Plano, mas poucas efetivamente opinaram”, explicou.

Roberto Falcão, contudo, mostrou-se triplamente otimista:  1) por força da legislação, o PMSB pode ser revisado em 4 e 4 anos; 2) com o papel que a futura Agência Reguladora de Saneamento terá no sentido de acatar as demandas da sociedade e assim pressionar a empresa concessionária que presta o serviço e 3) com as futuras audiências públicas, que deverão mobilizar um maior número de interessados, em que serão discutidas as questões da coleta e disposição dos resíduos sólidos, o tratamento e o manejo das águas pluviais.

Balizada no estudo “O Caminho da Águas…” do qual fez parte, a pesquisadora do Ciags, Elisabete Santos, afirmou à Revista Muito – A Tarde, em novembro passado, que a cidade de Salvador estava se tornando árida por conta da degradação dos rios causada, fundamentalmente, por esgotos residenciais.

Outra consequência dessa degradação diz respeito ao impacto direto nos  rituais do candomblé. Anselmo Santos, dirigente do Terreiro Mokambo, no bairro do Trobogy, chama a atenção para importância e o sentido da água no candomblé, e a degradação da nascente do rio de mesmo nome.

Na edição da sexta-feira, dia 21/01 do mesmo A Tarde, sob o título “Emissões clandestinas de dejetos poluem as praias”, do jornalista Hieros Vasconcelos, trouxe a afirmação do superintendente de Meio Ambiente da Embasa (Empresa Baiana de Águas e Saneamento) Engenheiro Júlio Mota, segundo a qual 83% dos esgotos sanitários estão conectados à rede coletora de esgotos.

Contudo, se ffor feita uma análise fria  dos números oficiais e considerar  o estudo coordenado  pela equipe do Ciags, então,  conclui-se que os 17% de esgotos não-conectados são o vilão do acelerado processo  de degradação porque passa nossos rios e fontes. Mas será que é só isso mesmo?

Se a aritmética for assim tão simples, como diz Júlio Mota, então a problemática da destruição dos rios, fontes e o despejo de esgoto em muitas praias de Salvador está com os dias contatos. Parece algo tão simples, mas o estudo do grupo coordenado pelo Ciags mostra um outro quadro e bem mais dramático.

Modelo hegemônico – A política pública de saneamento básico de Salvador, em relação aos esgotos domésticos, com seus mais de 2,6 milhões de habitantes, executada pela Embasa, está assentada, fundamentalmente, em estruturas de rede de tubulações que se interligam.  Os dejetos e águas servidas coletados são conduzidos à rede coletora de esgotos e encaminhados para tratamento preliminar na Estação de Condicionamento Prévio do Lucaia e, daí, para o mar, via emissários terrestre e submarino do Rio Vermelho, e lançados a 2,35km mar a dentro.

Além desse emissário, que já funciona há 35 anos, a Embasa planeja inaugurar em breve um outro, no bairro da Boca do Rio. O grave problema dessa política tradicional de saneamento é que, na maioria absoluta das vezes, esse sistema centralizador de esgotamento sanitário se utiliza dos rios da cidade como escoadouro.

Uma das vozes dissonantes desse modelo hegemônico de tratar os esgotos residenciais da capital baiana, e que certamente não é diferente do adotado pelo Brasil afora, é o engenheiro civil e sanitarista, pesquisador e professor titular em saneamento da Escola Politécnica da Ufba, e um dos coautores da pesquisa que resultou no livro “O Caminho das Águas” –, Luiz Roberto Moraes.  Para ele, trata-se de um modelo caro, centralizador, insustentável sob vários aspectos e contribuinte para o nível de degradação dos nossos rios.

Mobilização social – Considerando que o termo sustentabilidade hoje se transformou numa geleia geral e é usado abundantemente de todas as formas e interesses; o que seria então uma política de saneamento sustentável?  Em linhas gerais, e correndo o perigo de simplificação, pode-se afirmar que um bom norte neste sentido é a defesa da água como um bem social, a necessidade de sua gestão integrada, com participação social e a utilização de tecnologias apropriadas aos contextos socioeconômico, cultural e ambiental. E mais: tal política terá, necessariamente, que absorver o que dita os princípios de gestão, conforme a Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei federal n. 9.433/97)

O professor Luiz Moraes acredita e defende que há sim modelos alternativos, seguros, de custo menor, capazes de mobilizar e envolver comunidades inteiras, além de, é claro, serem capazes de reverter essa encruzilhada destrutiva, social e ambientalmente, a que cidade do Salvador está enredada.

 De qualquer modo, ficam a questão e o desafio ante a grave situação das águas da maioria dos rios e fontes soteropolitanas: para além de um avançado PDDU no capítulo saneamento básico e gestão das águas, o que se faz necessário e urgente é a mobilização e participação da sociedade civil no sentido de tomar para si os destinos cidade.


Construções ecológicas crescem em Salvador

Por Jorge Gauthier

Pode não parecer, mas as construções são descartáveis. Isso mesmo, a casa onde você mora um dia vai virar lixo. O problema é que é um tipo de lixo bem difícil de ser descartado ou absorvido pelo meio ambiente. Pensando na preservação dos ecossistemas naturais, iniciativas da construção civil têm planejado edificações que são projetadas de olho no dia em que serão descartadas. Afinal, imóveis são demolidos diariamente para dar lugar a outras construções.

O ideal de construções ecologicamente corretas estão em expansão no mercado. São projetos como telhados florestais – feitos com plantas – uso de vidros especiais que reduzem o uso de energia elétrica, elevadores sem casa de máquina e sistema de reaproveitamento de água.

Com prédios cada vez mais altos, o uso de elevadores é cada vez mais necessário nas contruções. Porém, eles requerem um consumo alto de energia elétrica. Para melhorar isso, elevadores estão sendo projetados com controlador lógico programável, sem casa de máquina nem engrenagem. Além de economizar energia, esse tipo de iniciativa ainda diminui a quantidade de materiais usados nas construções.

Placas chamadas de fotovoltaicas instaladas no teto dos imóveis estão sendo usadas para o  aquecimento de água em algumas construções. Áreas  comuns e de circulação com iluminação natural e utilização de sensores de presença são outras estratégias para evitar  o consumo desnecessário de energia. Para economizar água, por sua vez, construções apostam em torneiras inteligentes, que diminuem a vasão de água, e em vasos sanitários que têm dois tipos de descarga que são acionadas a depender do que será descartado.

Casa ecologicamente correta deve inserir o contexto social

Para o arquiteto e professor André Santos, do curso de Urbanismo da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), mestre em planejamento urbano e regional, todas as construções precisam ter uma boa relação com o meio ambiente.

“Para que uma construção seja considerada ecologicamente correta ela tem que está inserida no contexto ecológico e social. Vai desde a escolha dos materiais até na localização do empreendimento perto do local de trabalho, para que não haja muito uso de combustível no deslocamento dos futuros moradores”, explica o professor .

Santos esclarece que itens como o uso de energia solar e o reapro-veitamento de água favorecem a formação de redes ecologicamente corretas.

“É ideal que as construções usem materiais degradáveis, como a madeira, que, no caso de ser descartada, é totalmente assimilada pelo ambiente. As edificações, para serem ecologicamente corretas precisam ser pensadas como algo que é produzido, consumido, planejado e descartado depois do uso”, esclarece o professor, lembrando que ainda não há, na Bahia, nenhuma construção 100% ecologicamente correta.

Iniciativas

Mas uma casa ecologicamente correta não quer dizer que não tenha cimento, por exemplo. No mercado, já há cimentos que são fabricados com adição de produtos que poluem menos o meio ambiente caso precisem ser descartados. Em substituição ao uso de vergalhões de ferro, por exemplo, outros materiais, como aço especial Sac-300 e laminados ASTM A-572, estão sendo usados em algumas construções.

Com o objetivo de fazer uma construção ecologicamente correta, a empresa Caramelo Arquitetos, por exemplo, está edificando no bairro Ondina em Salvador a nova sede da empresa, que atende aos critérios de preservãção ambiental. A fachada do prédio será inteiramente de vidro do tipo Guardian Royal Blue 40 – que aproveita a luz solar. Além disso, os pisos serão porcelanatos reciclados. A estrutura de piso, em alguns trechos do imóvel, está sendo constituída de um plástico de alta resistência, o polipropileno.

O arquiteto Antônio Caramelo, que está à frente do projeto, acredita que a sede do escritório ganhará, assim que for construído, o Selo Verde, através do Green Building Council (GBC), organismo de renome internacional que certifica empreendimentos ecologicamente corretos.

“A estrutura de piso elevado Remaster também segue os preceitos da sustentabilidade, sendo constituída de um plástico de alta resistência, o polipropileno, por onde passará o cabeamento de fibra ótica blindada da Furokawa. A cobertura contará com placas fotovoltaicas para aquecimento de água de lavatórios e copa. Haverá captação e tratamento de água pluvial para uso geral, assim como tratamento de águas cinzas para reuso”, complementa Caramelo.

Estratégias

Em construção na avenida Tancredo Neves, em Salvador, o Syene Corporate , da Syene Empreendimentos,  está sendo erguido com a intenção ser o primeiro edifício comercial com o título de “empreendimento verde” do Norte e Nordeste. O Syene Corporate, também projetado pelo arquiteto Antônio Caramelo, vai usar telhas termoacústicas e  vidros de alta performance em conforto térmico nas fachadas. Além disso, haverá captação e reaproveitamento das águas das chuvas, instalação de unidades coletoras de lixo  em todos os andares das torres e uso de piso elevado e forros modulados 100% reciclados e recicláveis e utilização de sanitários a vácuo.

O projeto, segundo o diretor da Syene, Alberto Lorenzo, ganhou certificação  de organismos internacionais no quesito sustentabilidade. “O selo ratifica o compromisso da incorporada em trazer para Salvador edificações especiais e tecnologias de ponta no que diz respeito à sustentabilidade na construção civil, contribuindo para a preservação do meio ambiente”, comenta.

Outro empreendimento que está sendo erguido em Salvador com perspectivas de preservação do meio ambiente é o Orizon Views Houses, da Queiroz Galvão, localizado no Morro Ipiranga. Os vidros do empreendimento  têm filtros que protegem 92% contra raios ultravioletas e 68% contra infravermelho.  O uso desses vidros especiais diminuem a necessidade do uso de ar condicionado e ,consequentemente, preservam energia do ambiente.

Madeira inteligente para construções

No período colonial, a madeira foi amplamente usada pela construção civil  no Brasil. Mas, com o passar dos anos, em função da presevação ambiental, deixou-se de usar madeiras de matas virgens e formaram-se plantações de árvores para uso das madeiras exclusivamente com a finalidade de construção. São as chamadas madeiras tratadas. São produzidos por ano, no Brasil, um 1,2 milhão de  metros cúbicos de madeira tratada – sendo 10% usado na construção civil.

Na Bahia, uma usina –  localizada no Km 14,5 da Estrada do Coco, próxima ao pedágio no sentido Litoral Norte – fabrica esse tipo de madeira para uso na construção. O tratamento de eucalipto e pinus é realizado em usinas de tratamento por vácuo, pressão ou autoclave. “Existem 250 unidades de tratamento no Brasil. Funciona assim, num cilindro [autoclave] são introduzidos os produtos químicos preservantes, que variam de acordo com o tipo de árvore utilizada”, afirma o diretor Associação Brasileira de Preservadores de Madeira, Flavio Carlos Geraldo.

Madeira tratada, como pinus e eucalipto, é usada na construção

A falta de conhecimento interfere diretamente no uso da madeira tratada na construção civil. “Muitos arquitetos não conhecem os benefícios do uso desse material, que pode oferecer maior empenho nas composições estruturais, pois a robustez, aliada ao tratamento químico, resulta em longevidade. Fica de 10% a 20% mais barato que a estrutura com madeira nativa serrada, além disso, oferece boas características técnicas, beleza singular e, acima de tudo ,é uma opção sustentável”, destaca Geraldo.

A ABPM conta com o apoio do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) para desenvolver o projeto de qualificação das unidades industriais, e são auditadas quanto aos aspectos técnicos e legais, na elaboração do Selo de Qualificação, que credencia as empresas como  tratadoras de madeira.

UFBA estuda efeitos da dragagem nos portos

Por Josemary Nunes e Lívia Orge

Avaliar o impacto ambiental promovido pelas atividades de dragagem nos portos de Salvador e Aratu, empregando organismos planctônicos como biomonitores. É assim que está sendo realizada, pelo Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a pesquisa de Monitoramento da Comunidade Planctônica, que visa verificar o grau de poluição da água e as suas consequências para os organismos invertebrados e para os peixes.

Resultante de um convênio entre a Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba), a Fundação de Apoio a Pesquisa e Extensão (Fapex) e a UFBA, a pesquisa foi iniciada em fevereiro deste ano e é coordenada pelo doutor em Oceanografia, Paulo de Oliveira Mafalda Júnior.

O estudo utiliza algas (fitoplâncton), larvas de invertebrados (zooplâncton) e ovos e larvas de peixes (ictioplâncton), que vivem na coluna de água, como monitores de avaliação da qualidade da água e dos efeitos da dragagem.

“Esses portos estão sendo alvos de atividade de dragagem. Quando a draga remobiliza o fundo da baía, revolve sedimentos e com eles ressuspende também poluentes que podem estar acumulados e que podem envolver hidrocarbonetos, metais pesados e nutrientes”, explica o pesquisador. “Estas substâncias químicas ,ao serem lançadas na coluna d’água, alteram a sua qualidade com reflexos sobre o crescimento e a sobrevivência dos organismos planctônicos”, completa.

Ainda segundo Mafalda Júnior, os estudos e coleta de amostras dos sedimentos e da água acontecem em diferentes fases. A amostragem antes da atividade de dragagem foi realizada no mês de fevereiro, quando houve coleta no porto de Aratu e, no mês de março, no porto de Salvador. “Teremos cinco momentos para serem comparados. Assim, nós poderemos verificar qual foi o efeito da ressuspensão do sedimento”, afirma o oceanógrafo.

A pesquisa de monitoramento, que terá duração de 30 meses, pretende monitorar as atividades de dragagem nesses portos, no intuito de salvaguardar o meio ambiente das ações deletérias dessas atividades. Para isso, uma equipe multidisciplinar da UFBA realiza estudos envolvendo o monitoramento da pluma de sedimentos, a análise química e ecotoxicológica da água, o monitoramento da comunidade bentônica incluindo os recifes de corais, além do monitoramento da comunidade de peixes para verificar se existem alterações na atividade pesqueira.

O professor explica que, embora a atividade de dragagem possa causar impactos, ela não pode deixar de ser realizada. Contudo, deve-se minimizar suas consequências. Os órgãos ambientais devem fiscalizar se a empresa que estiver promovendo a atividade está fazendo isso dentro das normas ambientais aceitáveis, pois caso a atividade de dragagem esteja sendo realizada sem monitoramento e sem fiscalização as consequências para a população podem ser danosas. Os organismos que vivem na zona intermareal, ou que vivem nas áreas de mangues, seriam os mais afetados.

“Assim, nós poderíamos ter queda na produção extrativista no manguezal, envolvendo, por exemplo, a produção de ostras e lambreta, além de possíveis alterações na captura de peixes”, explica o pesquisador.

Denúncia
E é justamente isso que vem ocorrendo. No mês de novembro, ambientalistas denunciaram, no jornal A Tarde que o Porto de Aratu funciona sem licença e sem fiscalização. Segundo eles, em 2001 foi solicitada uma licença de operação, após o Ibama ter vistoriado o local, mas o órgão aguarda a elaboração do estudo ambiental para conceder a licença. “Todo dia há um crime ambiental. Falta fiscalização, pois a lavagem dos navios derruba produtos químicos e contamina a baía. A fiscalização tem que ser contínua”, afirmou Marcell Morais, do Grupo de Defesa e Promoção à Saúde Ambiental (Garmen).

“Há mais ou menos um mês, catei num dia mais de 300 peixes mortos, despedaçados. A draga está sugando os peixes e quando joga a água eles saem despedaçados”, relata o pescador Paulo César Bottencourt, da comunidade de Botelho, a mais próxima do porto de Aratu.

“Apanhei muitos robalos e espadas sem cabeça. É a pior situação que já vi”, denuncia outro pescador, Natanael Farias, da comunidade de Caboto.

Segundo a representante dos pescadores, Marizélia Lopes, a comunidade depende da pesca. Ela teme que a escassez de peixes permaneça por muitos anos, pois a dragagem estaria destruindo os recifes onde a fauna marinha se reproduz.

Segundo o pesquisador Paulo Mafalda Júnior, deve haver um tipo de ressarcimento para os pescadores, caso eles não tenham o que pescar por causa dos efeitos da dragagem na fauna marinha.

O especialista e sua equipe, formada por uma doutoranda em Geologia, uma mestranda em Geoquímica e três estudantes de graduação em Biologia e Oceanografia,  entregarão, em breve, um relatório sobre a mortandade de peixes em Aratu.

“Esses portos estão sendo alvos de atividade de dragagem", afirma o pesquisador Paulo

Mafalda Júnior: Deve-se minimizar as consequências ambientais das dragagens

Fotos: Josemary Nunes e Agência A Tarde

Lixo eletrônico é problema ainda sem solução

Por Rosana Guimarães e Celeste Dias

Você sabe definir o que é lixo eletrônico? Se respondeu que são aqueles e-mails cadastrados como SPAM na sua caixa de correspondência virtual a sua resposta está: errada! Mas, calma! Não se aflija porque muita gente já pensou o mesmo.

Então, para ficar bem informado e saber o que é, os riscos que apresenta à saúde, postos de coleta e a reciclagem do lixo eletrônico, acomode-se na sua cadeira e continue lendo esta matéria.

Foto: Greenpeace

O lixo eletrônico é tudo aquilo que nós, amantes de tecnologia principalmente, adoramos: computadores, celulares, televisores, monitores, cds, dvds, mp3 (4, 5, 6, até o infinito!), entre outros, e seus “acompanhantes” como as baterias e pilhas. As lâmpadas fluorescentes, as geladeiras, os microondas, diversos brinquedos, os rádios e afins, todos também fazem parte desse mundo que, a cada dia, com as inovações tecnológicas, se tornam obsoletos ou ultrapassados. E aí, quando isso acontece, o que fazemos? Descartamos nos aterros comuns! Você pode até ser uma exceção, mas, 99% das pessoas no planeta não o fazem. Para se ter uma ideia do tamanho do problema até a  ONU (Organização das Nações Unidas) fez um relatório cobrando a criação de sistemas de coleta e gestão do lixo eletrônico, já que há previsão de que a venda de tais produtos aumente significativamente no mundo e, mais ainda, em países da América Latina (nós inclusos), África, China e Índia.

Para confirmar esta estatística, podemos dar alguns exemplos, como:

  • Mais de 40 milhões de toneladas de lixo eletrônico são produzidos anualmente;
  • Aparelhos de TV produzem 137 mil toneladas de lixo por ano, seguido de 115 mil de geladeiras e 96,8 mil só de computadores;
  • O Brasil encerrou 2010 com um total de mais de 202 milhões de telefones celulares (aumento de 16,6% em relação ao ano anterior);
  • Salvador lidera o ranking de celulares por habitantes: 155,51/100 pessoas;
  • O Brasil deverá ter 140 milhões de computadores até 2014;
  • E, até 2014 também, a Europa deverá ter 47 milhões de televisores com acesso à internet.

Já que os números são grandes, vamos entender agora o porquê dessa preocupação de algumas pessoas e ONGs com o descarte do lixo eletrônico.

DESCARTE
Por se tratar de produtos elétricos e eletrônicos, temos neles diversos conjuntos de placas, fios, cordões, plásticos antichamas, disjuntores de mercúrio, resistências, sensores, gases de efeito estufa, telas de visualizações etc. Estes itens, em sua maioria, contêm substâncias tóxicas que são maléficas para os seres vivos (humanos e animais) e também para a natureza. Isso porque, o descarte incorreto do e-lixo, polui o solo, as águas de mananciais, rios, lagos, oceanos e também o lençol freático. O ser vivo se contamina através do contato direto com as substâncias (catadores de sucatas) e também através dos animais, alimentos e água contaminados, gerando doenças e até a morte.

Entre as substâncias tóxicas mais preocupantes estão os metais pesados (arsênio, alumínio, cádmio, chumbo, mercúrio, entre outros) e os retardadores de chama bromados (PBB) e de éteres difenílicos polibromados (PBDE).

Abaixo, uma tabela de onde encontramos estas substâncias e seus malefícios para o meio ambiente e a humanidade.

Agora que você já compreendeu os riscos do descarte incorreto do e-lixo, veja a lista de locais onde pode entregá-lo ou até mesmo ideias para reciclagem. Já que leu tudo até aqui, daremos um presentinho para você: o Guia de Eletrônicos Verdes (das empresas que têm reduzido o uso de tóxicos nos aparelhos) e um link com jogos de gerenciamento de resíduos de grandes cidades e de consumo sustentável (The Garbage Game e o Consumo Eficiente).

Para evitar o descarte incorreto de lixos eletrônicos, as empresas, pressionadas pela Resolução nº 257, de 30 de junho de 1999, do Conselho Nacional de Meio Ambiente – CONAMA, estabeleceu a obrigatoriedade de procedimentos de reutilização, reciclagem, tratamento ou disposição final ambientalmente adequada para pilhas e baterias que contenham em suas composições chumbo, cádmio, mercúrio e seus compostos. Diante disso, fabricantes e algumas redes de supermercados já fazem coleta de celulares e pilhas usadas. Veja algumas:

Lojas do Hiper Bompreço;

Extra;

G. Barbosa;

Garagem da Casa do Comércio;

Térreo do Shopping Salvador (só jornais);

Agências do Banco Real – somente baterias usadas.

Apesar de uma quantidade muito pequena de postos de coleta, ainda é possível fazer a devolução de monitores, impressoras, CPU, celulares etc, e outros objetos nessa linha que foram descartados. Mas outros equipamentos como microondas, som, ar condicionado, televisão, geladeira, máquina de lavar, entre outros, o destino ainda é o ferro velho, deixando a população em contato com diversos materiais pesados, a exemplo do chumbo, cádmio, mercúrio e vários outros elementos tóxicos. Esses materiais se não forem direcionados adequadamente podem causar sérios danos à saúde humana, bem como ao meio ambiente. Em Nova York, fabricantes de computadores, aparelhos de TV e de MP3 são responsáveis pela coleta dos aparelhos descartados pelos clientes.

Para regularizar a coleta de lixo eletrônico, devem ser realizadas ações conjuntas entre:

Empresas produtoras – que devem levar em conta a questão ambiental na seleção dos materiais usados em sua fabricação, definir formas e processos de produção menos poluentes, planejar o design do produto de forma a facilitar o reaproveitamento, inserir no produto ferramentas que permitam ao usuário utilizá-lo com menor gasto de energia e assim por diante.

Poder público – legislar de forma a coibir abusos, fiscalizar o cumprimento das normas e proteger a população contra ameaças e desastres ambientais.

Público consumidor –  usar critérios ambientais para definir desde a escolha do equipamento até o destino do produto, ao descartá-lo.

Em Salvador, o ambientalista Joandro Araújo faz esse trabalho de coleta de material de informática e encaminha uma parte para o ferro velho e as placas vão para uma empresa recicladora especializada em São Paulo.

CUIDADO
Pilhas e Baterias que possuem metais pesados (cádmio, mercúrio, chumbo e zinco) lançadas aleatoriamente no solo, rios e lagoas,  podem causar ao homem, disfunção renal, problemas pulmonares e cerebrais, estomatite, anemia e perda de memória.

Veja aqui alguns trabalhos realizados com a reciclagem do lixo eletrônico.